terça-feira, 29 de março de 2016

Não use guarda chuva



Voltando para casa, o céu armava um temporal, já não se via mais ninguém andando nas calçadas. 
As arvores balançavam, e os pássaros procuravam seus ninhos.
 E eu? Andava sem pressa, carregando aquele coração pesado e apertado que chegava a curvar minha coluna, cabisbaixa senti uma forte gota de chuva se instalando em minha nuca,  não esbocei nenhuma reação, apenas dei ouvido aos rojões que do alto descia. 
O temporal, que existia dentro de mim, com certeza era bem mais forte que qualquer um que se armasse em cima de minha cabeça. 
Outra vez, uma gota alcançou minha nuca, agora não só uma gota. Eram vários pingos, que se desmanchavam em meu corpo. 
Pensei em pegar o guarda chuva. 
Mas, para que guarda chuva?
Guardarei toda chuva dentro de mim. Até que transborde.
Preciso chorar, preciso derramar a água dos meus olhos.
Preciso diluir os sentimentos, torna-los em líquidos, ver tudo sendo jorrado, como água de uma nascente.
Deixo a chuva alcançar o meu corpo, até atingir minha alma. 
Não me importo mais em molhar os cabelos, andar com a roupa enxuta.
Não me importo  em pegar um resfriado. 
Só quero chorar. 
Unir os dois temporais.
O meu e o de Deus.
Derramar as lágrimas e deixa-las se misturarem com as gotas que o céu chorou.
Não usar o guarda chuva, foi mais que uma confissão. 
Foi um socorro de imediato. Foi como chorar com Deus e esquecer da solidão. 





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