sábado, 9 de julho de 2016

Apenas me abrace


Exijo que nao abrace somente meu corpo. Abrace minha alma, abrace meu desespero, abrace minha tristeza, abrace minha angústia,  abrace minha dor.
 Abrace minhas poucas palavras.
 Me abrace profundamente, até que se perca em mim e me encontre.
Abrace minha causa.
Com urgenica.
Abrace meu coração, ainda que não o tenha em tuas mãos. Encosta o teu no meu, deixe eles se abraçarem.
Simplismente, me abrace.
Apertado
Sem demora
Sem futuro, nem passado.
Me abrace,
Nesse instante,
Agora.
E espere, por fim a eternidade vir nos abraçar.

terça-feira, 29 de março de 2016

Não use guarda chuva



Voltando para casa, o céu armava um temporal, já não se via mais ninguém andando nas calçadas. 
As arvores balançavam, e os pássaros procuravam seus ninhos.
 E eu? Andava sem pressa, carregando aquele coração pesado e apertado que chegava a curvar minha coluna, cabisbaixa senti uma forte gota de chuva se instalando em minha nuca,  não esbocei nenhuma reação, apenas dei ouvido aos rojões que do alto descia. 
O temporal, que existia dentro de mim, com certeza era bem mais forte que qualquer um que se armasse em cima de minha cabeça. 
Outra vez, uma gota alcançou minha nuca, agora não só uma gota. Eram vários pingos, que se desmanchavam em meu corpo. 
Pensei em pegar o guarda chuva. 
Mas, para que guarda chuva?
Guardarei toda chuva dentro de mim. Até que transborde.
Preciso chorar, preciso derramar a água dos meus olhos.
Preciso diluir os sentimentos, torna-los em líquidos, ver tudo sendo jorrado, como água de uma nascente.
Deixo a chuva alcançar o meu corpo, até atingir minha alma. 
Não me importo mais em molhar os cabelos, andar com a roupa enxuta.
Não me importo  em pegar um resfriado. 
Só quero chorar. 
Unir os dois temporais.
O meu e o de Deus.
Derramar as lágrimas e deixa-las se misturarem com as gotas que o céu chorou.
Não usar o guarda chuva, foi mais que uma confissão. 
Foi um socorro de imediato. Foi como chorar com Deus e esquecer da solidão. 





segunda-feira, 28 de março de 2016

Por favor, tire os sapatos.







Sim, 


Ele me convidou 
Eu fui.

Mas antes, tirou meus sapatos.
Aqueles que mantiveram meus pés apertados toda a vida.
Não foi tão fácil como pensei,  
Sempre tive vergonha de meus pés,
Ele não é o mais bonito.
Pelo contrário, o mais esquisito.
Dar os primeiros passos sem seus sapatos, é bem diferente do que eu pensava
Um eterno aprendizado
Sentir o chão e o calor do universo se hospedando no calcanhar. 
Pisar em pedras, em cacos, em espinhos, abrir feridas.
Tirar os sapatos é como o ovo que saí de sua casca.
E se vê nu de toda aquela armadura, de toda aquela proteção que se criou ao longo da vida.
É ter que lidar com enfrentamentos escorregadios todos os dias.
É ser de verdade, sem a vergonha
Estar descalço é a forma mais honesta de dizer que nasceu de novo.
Não ter mais porque se esconder 
Pisar no chão e dançar com a realidade
com o instante
Ganhar segurança ao pisar na lama.
É vencer todos os dias o medo de se ferir. 
É caminhar com a certeza de que ao chegar em casa 
Ele estará ali, disposto a lavar os seus pés,
Para que no outro dia, você caminhe um pouco mais.